Em 17 de outubro, o Brasil celebra o Dia Nacional da Vacinação. Em geral, a importância da vacinação aparece sob o ponto de vista de quem toma a vacina. Porém, há outro lado menos lembrado: quem se vacina também protege as pessoas ao redor. Isso vale de forma especial para quem convive com alguém que tem o sistema imunológico enfraquecido, como pacientes em tratamento oncológico ou transplantados.
O que o Brasil construiu com o PNI
O Programa Nacional de Imunizações (PNI) nasceu em 1973. Segundo o Ministério da Saúde, o SUS oferece hoje mais de 20 imunizantes gratuitos. A rede conta com cerca de 38 mil salas de vacinação e distribui por volta de 300 milhões de doses por ano.
O resultado aparece em conquistas concretas:
- o país erradicou a varíola;
- o Brasil recebeu, em 1994, o certificado de eliminação da poliomielite selvagem;
- em 2015, o país recebeu o certificado de eliminação da rubéola;
- a vacina contra o HPV chegou gratuitamente ao SUS, em uma iniciativa pioneira de prevenção do câncer de colo do útero.
Além disso, a vacinação reduziu de forma drástica os casos e os óbitos por difteria, tétano e coqueluche. Na campanha contra a H1N1, mais de 88 milhões de pessoas receberam a vacina em três meses.
O momento atual: uma boa notícia e um alerta
A boa notícia
Depois de anos de queda, a vacinação infantil voltou a avançar. As estimativas da OMS e do Unicef, reunidas pelo ICTQ, mostram a mudança. O número de crianças sem nenhuma dose no primeiro ano de vida caiu de 360 mil em 2023 para 255 mil em 2024. Em 2025, chegou a 50 mil.
O alerta
O quadro, porém, ainda não é confortável. Segundo reportagem do Metrópoles, apenas a BCG e a vacina contra hepatite B atingiram a meta de 95% de cobertura em 2025. Além disso, até 2023, cerca de 80% da população vivia em municípios sem as metas atingidas para a maioria das vacinas. O dado vem do Anuário Vacina BR, citado pela Medicina S/A.
O sarampo mostra o risco na prática. Em 2026, o país registrou 52 casos até 5 de outubro, todos importados. Já a cobertura da segunda dose da tríplice viral ficou em torno de 78%. Contamos essa história no artigo sobre o certificado de país livre de sarampo, que também faz parte desta série.
Quem não consegue se proteger sozinho
Quem são essas pessoas
Algumas pessoas têm menos defesa contra infecções. Isso inclui quem faz tratamento oncológico, quem recebeu um transplante e quem usa medicamentos imunossupressores. Nesses casos, dois problemas se somam. O risco de infecção grave é maior e a resposta à vacina pode ser menor, conforme a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Além disso, algumas vacinas de vírus vivo, como a tríplice viral, podem ter contraindicação.
Explicamos esse tema com mais detalhe no artigo Imunização para Pacientes Imunocomprometidos.
Por que a vacina do outro importa
Quando a vacina do paciente funciona menos ou nem cabe no caso dele, a proteção precisa vir de fora. É a imunidade coletiva em ação: quanto mais pessoas protegidas ao redor, menor a chance de o vírus chegar ao paciente. A SBIm orienta que familiares, cuidadores e profissionais de saúde mantenham o calendário em dia. Isso inclui vacinas que a rede básica não oferece de rotina.
Para o hematologista Marcio Nucci, da Oncoclínicas, a proteção do paciente depende também da vacinação de familiares, cuidadores e pessoas próximas. Ele a descreve como uma “rede de proteção” que reduz a transmissão de doenças, em entrevista à Medicina S/A.
O que quem convive com um imunocomprometido pode fazer
- Atualize a caderneta. Verifique se todas as vacinas do seu calendário estão em dia.
- Tome a vacina da gripe todos os anos. A dose é anual, e a gripe pode trazer complicações graves para quem tem imunidade baixa.
- Procure o CRIE, se necessário. Os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais fornecem influenza, varicela e tríplice viral para conviventes suscetíveis.
- Troque a pólio oral pela inativada. A SBIm indica que a vacina oral não serve nessa situação, e a versão inativada a substitui.
- Converse com a equipe médica do paciente. Algumas vacinas podem exigir cuidados específicos, e o médico orienta cada caso.
- Fique em casa se estiver com sintomas. Febre, tosse, coriza e manchas na pele pedem avaliação, e o contato com o paciente deve esperar.
- Use máscara em ambientes de maior risco. A medida complementa a vacinação.
E o paciente? Vacinar cedo faz diferença
Para quem está em tratamento, o momento da vacina conta muito. Segundo Nucci, o planejamento deve começar logo após o diagnóstico. O ideal é vacinar antes dos tratamentos imunossupressores, quando a resposta às vacinas tende a ser melhor. A lista de vacinas recomendadas aos pacientes oncológicos inclui pneumococo, influenza, Covid-19, herpes-zóster e meningococo. Também entram as hepatites A e B, tétano, difteria e o vírus sincicial respiratório.
Mitos e verdades sobre vacinação e proteção coletiva
“Se todos ao meu redor estão vacinados, eu não preciso me vacinar.” Mito. A imunidade coletiva depende de cada pessoa. Quanto mais gente protegida, mais forte é o escudo, e cada falha abre espaço para o vírus.
“A vacina da gripe vale por vários anos.” Mito. A dose é anual, especialmente para idosos, gestantes, imunossuprimidos e pessoas com doenças crônicas, segundo a Times Brasil.
“Adulto não precisa mais se vacinar.” Mito. O adulto precisa do reforço da dT a cada 10 anos, e pessoas acima de 50 anos têm a vacina contra herpes-zóster entre as recomendações.
“Se o paciente já se vacinou, a família não precisa fazer nada.” Mito. A resposta à vacina pode ser menor em quem tem imunidade baixa. Por isso, a vacinação dos conviventes funciona como uma segunda camada de proteção.
Perguntas frequentes
Por que a vacinação é importante? A vacina protege quem a recebe e reduz a circulação de vírus e bactérias na população. Assim, ela também protege quem não pode se vacinar ou responde pouco à vacina.
O que é imunidade coletiva? É a proteção indireta que surge quando uma parte grande da população está imunizada. Portanto, com menos pessoas suscetíveis, o agente infeccioso encontra mais dificuldade para circular.
Quem convive com um imunocomprometido deve se vacinar? Sim. A SBIm orienta que conviventes, cuidadores e profissionais de saúde mantenham o calendário atualizado. Além disso, o CRIE fornece algumas vacinas, como influenza, varicela e tríplice viral, para conviventes suscetíveis.
Quem usa imunossupressor pode tomar qualquer vacina? Nem sempre. As vacinas inativadas costumam ser seguras. No entanto, as de vírus vivo atenuado podem ter contraindicação, e o médico define cada caso.
Qual a situação da cobertura vacinal no Brasil? Melhorou em parte, já que o número de crianças sem nenhuma dose caiu para 50 mil em 2025. Mesmo assim, só a BCG e a hepatite B atingiram a meta de 95% em 2025.
Onde encontro as vacinas do SUS? Nas unidades básicas de saúde de todo o país, de graça. Também é possível levar a caderneta à unidade, pois a equipe avalia o que falta.
Conclusão
A importância da vacinação vai além do indivíduo. O Brasil construiu um dos maiores programas de imunização do mundo e já recuperou terreno na vacinação infantil, mas ainda tem metas a cumprir. Além disso, para quem tem imunidade baixa, a vacina do outro faz parte do tratamento. Portanto, no Dia Nacional da Vacinação, vale checar a caderneta, a sua e a de quem vive com você, e lembrar que cada dose protege também quem está ao lado.
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