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Nova Definição de Obesidade: o que muda em 2026

Durante décadas, um único número resumiu a obesidade: o IMC. Em 2025, uma comissão internacional ligada à The Lancet propôs uma nova definição de obesidade, baseada em saúde e não apenas em peso. Em 2026, o Brasil atualizou sua diretriz de tratamento. Além disso, a OMS lançou a primeira orientação global sobre medicamentos para a doença. Assim, essas mudanças alteram o que significa ter obesidade, como os profissionais tratam a doença e quem consegue acesso ao cuidado.

O IMC deixou de ser o único critério

O Índice de Massa Corporal divide o peso pela altura ao quadrado. Para pessoas de ascendência europeia, o limite da obesidade é de 30 kg/m². O cálculo é simples, mas tem limites claros. Um atleta com muita massa muscular pode ultrapassar esse valor sem nenhum problema de saúde. Por outro lado, uma pessoa com IMC mais baixo pode acumular gordura em locais que aumentam o risco.

Por isso, a Comissão da Lancet Diabetes & Endocrinology sobre definição e diagnóstico da obesidade clínica reuniu 56 especialistas, incluindo pessoas com experiência vivida da doença. Segundo texto dos autores, republicado pelo Metrópoles, a comissão propôs dividir o diagnóstico em duas categorias:

Obesidade clínica Obesidade pré-clínica
O que é Excesso de gordura com disfunção de órgãos ou limitação nas atividades do dia a dia Excesso de gordura sem doença associada e sem limitação funcional
Exemplos Falta de ar, insuficiência cardíaca, pressão alta, doença hepática gordurosa Função dos órgãos preservada
Foco do cuidado Tratar as complicações e a doença Reduzir riscos, monitorar e prevenir

Os critérios incluem 18 sinais para adultos e 13 para crianças e adolescentes. Além disso, outras medidas, como a circunferência da cintura, passam a confirmar o IMC. A gordura abdominal e a que envolve os órgãos internos têm a associação mais forte com o risco.

Essa mudança tem um efeito prático importante. Segundo os autores, ter um corpo maior não significa, por si só, ter obesidade clínica. Ao mesmo tempo, quem tem sinais de dano não precisa mais esperar um IMC extremo para receber atenção séria. Os autores também apontam que o novo enquadramento pode ajudar a reduzir o estigma.

Vale destacar que cada país ainda precisa incorporar esses critérios às suas diretrizes clínicas. Portanto, a mudança já orienta o debate, mas ainda caminha para a rotina dos consultórios.

O retrato do Brasil: um em cada quatro adultos

Os números brasileiros mostram por que o tema ganhou urgência. De acordo com o Vigitel 2025, reunido pelo Correio Braziliense, 62,6% dos adultos brasileiros têm excesso de peso. Além disso, 25,7% vivem com obesidade, ou seja, cerca de um em cada quatro adultos.

A série histórica é ainda mais reveladora. A prevalência subiu de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Em outras palavras, o número de adultos com obesidade cresceu 118% em 18 anos, segundo o Ministério da Saúde. No mesmo período, o diabetes cresceu 135% e a hipertensão, 31%.

Esses dados não aparecem isolados. A obesidade se conecta a dezenas de outras condições. Já explicamos, por exemplo, como a pressão alta evolui de forma silenciosa no artigo Como evitar a pressão alta. Da mesma forma, a relação entre sono e coração, que também envolve o peso corporal, aparece em A conexão entre o sono e a saúde do coração.

Uma doença crônica e recidivante

Em abril de 2026, a ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) lançou a nova Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade. Foi a primeira atualização em dez anos. Segundo a Medicina S/A, o documento trata a obesidade como doença crônica e recidivante. Isso significa que ela exige cuidado de longo prazo, e não uma intervenção temporária.

A mesma reportagem traz números que ajudam a dimensionar o problema. A obesidade responde por mais de 60 mil mortes prematuras por ano no Brasil e se associa a mais de 200 doenças. A diretriz também incorpora orientações sobre sarcopenia em idosos, apneia do sono e esteatohepatite associada à disfunção metabólica.

A ideia de doença recidivante tem respaldo em evidências sobre o que acontece quando o tratamento medicamentoso termina. Uma revisão sistemática com metanálise, publicada na Obesity Reviews em 2025 e resumida pelo portal Afya, encontrou reganho de peso proporcional ao que havia sido perdido. Com semaglutida e tirzepatida, o reganho médio foi de 9,69 kg após a suspensão. O reganho ocorreu mesmo com dieta e 150 minutos semanais de atividade física.

Na prática, isso muda a conversa. Se a obesidade se comporta como outras doenças crônicas, interromper o tratamento tende a trazer o problema de volta. Por isso, os autores recomendam encarar o cuidado como contínuo e planejado com acompanhamento profissional.

O que a OMS recomenda, e por que ela diz “condicional”

Em dezembro de 2025, a OMS publicou sua primeira diretriz global sobre agonistas de GLP-1 para obesidade. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde, a obesidade afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e esteve associada a 3,7 milhões de mortes em 2024. Sem ação decisiva, o número de pessoas com obesidade deve dobrar até 2030.

A OMS recomenda, de forma condicional, o uso de agonistas de GLP-1 por adultos, exceto gestantes, no tratamento de longo prazo. Os três medicamentos cobertos são liraglutida, semaglutida e tirzepatida. A palavra “condicional” tem motivos concretos:

  • os dados sobre eficácia e segurança a longo prazo ainda são limitados;
  • o custo atual é elevado;
  • os sistemas de saúde ainda não estão preparados;
  • há risco de ampliar desigualdades.

A organização também deixa claro que o medicamento sozinho não resolve. Ela propõe três pilares: ambientes mais saudáveis por meio de políticas populacionais, triagem e intervenção precoce para quem tem alto risco e cuidado contínuo centrado na pessoa.

O gargalo é o acesso

Aqui está o dado mais incômodo de toda a diretriz. Mesmo com a produção em expansão, a OMS estima que esses medicamentos alcancem menos de 10% das pessoas que poderiam se beneficiar até 2030. A organização sugere compras conjuntas, preços escalonados e licenciamento voluntário para ampliar o acesso.

No Brasil, o cenário reflete esse desafio. Segundo a Medway, semaglutida e liraglutida não fazem parte do SUS. A Conitec já recomendou contra a incorporação, e o impacto financeiro anual foi estimado em cerca de R$ 8 bilhões. Em junho de 2026, o Ministério da Saúde iniciou o projeto piloto Real-Bari, no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre. O estudo acompanha 250 pacientes do SUS com obesidade grave indicados para cirurgia bariátrica e avalia resultados e custos ao longo de dois anos.

Ou seja, o piloto é um passo, mas ainda pequeno diante de um problema que atinge milhões de brasileiros. Enquanto isso, a distância entre a recomendação e o acesso real segue grande.

O risco que cresce junto com a demanda

Onde há demanda alta e acesso difícil, surgem produtos irregulares. A própria OMS alerta que a procura alimentou a circulação de produtos falsificados e de baixa qualidade. Por isso, a organização defende distribuição regulada, prescrição por profissionais qualificados e supervisão forte.

No Brasil, a Anvisa já agiu nessa frente. Em agosto de 2025, a agência proibiu a manipulação de semaglutida e a importação de semaglutida sintética, conforme noticiou O Liberal. Segundo as entidades citadas na reportagem, medicamentos irregulares não garantem pureza, dosagem correta, estabilidade nem esterilidade. Isso pode levar à ineficácia do tratamento e a reações adversas graves.

O que fazer na prática

A nova definição de obesidade traz orientações úteis para quem quer cuidar da saúde com mais critério:

  • Peça uma avaliação além do IMC. Medida de cintura, pressão arterial, exames metabólicos e investigação de sono ajudam a mostrar o quadro completo.
  • Pergunte sobre complicações associadas. Pressão alta, apneia do sono e gordura no fígado costumam acompanhar a obesidade e merecem atenção própria.
  • Pense em tratamento como cuidado contínuo. Metas de curto prazo funcionam melhor quando fazem parte de um plano de longo prazo.
  • Use só fontes regulares. Medicamentos exigem prescrição, e produtos sem registro ou de origem duvidosa oferecem risco real.
  • Cuide da linguagem. Falar em “pessoa com obesidade” e evitar julgamentos reduz o estigma, que é uma das barreiras para a busca de cuidado.

Perguntas frequentes

O que é a nova definição de obesidade? É um conjunto de critérios proposto em 2025 por uma comissão da The Lancet Diabetes & Endocrinology. O diagnóstico deixa de depender só do IMC e passa a considerar a quantidade e a localização da gordura, além da presença de problemas de saúde.

Qual a diferença entre obesidade clínica e pré-clínica? Na obesidade clínica, o excesso de gordura vem acompanhado de disfunção de órgãos ou de limitação nas atividades diárias. Na pré-clínica, há excesso de gordura sem doença associada, mas com risco maior de problemas futuros, como diabetes tipo 2.

O IMC ainda serve para alguma coisa? Sim, como ferramenta inicial de triagem. A diferença é que ele deixa de ser o único critério e passa a ser confirmado por outras medidas, como a circunferência da cintura.

Por que a obesidade é considerada uma doença crônica e recidivante? Porque tende a persistir ao longo da vida e a retornar quando o tratamento é interrompido. Essa é a posição da diretriz da ABESO de 2026 e é compatível com estudos que mostram reganho de peso após a suspensão de medicamentos.

Os medicamentos para obesidade estão disponíveis no SUS? Não. Semaglutida e liraglutida não foram incorporadas ao SUS. Existe um projeto piloto, o Real-Bari, com 250 pacientes em Porto Alegre, que avalia resultados e custos.

Quem decide se um medicamento é indicado? Apenas um profissional de saúde qualificado, após avaliação individual. A automedicação e o uso de produtos sem registro oferecem riscos sérios.

Conclusão

A nova definição de obesidade traz uma mensagem clara: peso é só uma parte da história. O foco passa para saúde, função dos órgãos e cuidado contínuo. Ao mesmo tempo, a OMS e a ABESO reforçam que o tratamento exige acompanhamento de longo prazo. Resta o maior desafio, que é tornar esse cuidado acessível para quem precisa, com segurança e dentro das regras sanitárias.

A Nova Medicamentos apoia pacientes no acesso a medicamentos de alta complexidade, seja por aquisição direta ou por processos judiciais.