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Colesterol Genético: O Lp(a) que ninguém testa

Você provavelmente já ouviu falar em colesterol “bom” (HDL) e “ruim” (LDL). Sabe também que alimentação, atividade física e alguns medicamentos ajudam a controlá-los. Mas existe um terceiro tipo de colesterol que quase não aparece nessa conversa: a lipoproteína(a), ou Lp(a). Nem a dieta, nem o exercício, nem os medicamentos mais usados para colesterol conseguem controlá-la.

A genética determina o nível de Lp(a) em mais de 90% dos casos, diferente do LDL. Isso significa que uma pessoa pode ter hábitos de vida impecáveis e, ainda assim, carregar um risco cardiovascular elevado sem saber. Esse risco específico não vem do prato de comida. Vem do DNA.

O que é a Lp(a), e por que ela é diferente

A Lp(a) é uma partícula parecida com o LDL, mas com uma proteína adicional. Essa proteína a torna mais propensa a grudar nas paredes das artérias, favorecendo inflamação e a formação de placas. O colesterol LDL responde bem a mudanças de dieta, exercício físico e medicamentos como as estatinas. Já os níveis de Lp(a) permanecem praticamente estáveis ao longo de toda a vida de uma pessoa, porque a genética já os define logo no nascimento.

Na prática, isso quer dizer que duas pessoas podem ter exames de colesterol LDL idênticos. Mesmo assim, elas podem ter riscos cardiovasculares bem diferentes, se uma delas tiver Lp(a) elevada e a outra não.

Por que quase ninguém testa

Até recentemente, as diretrizes de colesterol não deixavam claro quem deveria fazer o exame de Lp(a), e isso significa que a maioria das pessoas nunca ouviu falar dele, nem sabe que ele existe como exame de rotina disponível. Some-se a isso o fato de que a Lp(a) elevada não causa nenhum sintoma perceptível, ela só se manifesta quando já contribuiu para um evento cardiovascular, como infarto ou AVC.

Esse cenário está mudando: diretrizes mais recentes de sociedades internacionais de cardiologia passaram a recomendar que todo adulto meça a Lp(a) pelo menos uma vez na vida, já que, uma vez medida, ela tende a não se alterar significativamente não é um exame que precisa de repetição anual, como o perfil lipídico tradicional.

A conexão com a hipercolesterolemia familiar

A Lp(a) elevada tem uma ligação estreita com outra condição pouco conhecida: a hipercolesterolemia familiar, um distúrbio genético hereditário que causa níveis muito altos de colesterol LDL desde o nascimento, independentemente da dieta. Um estudo brasileiro que avaliou pacientes com hipercolesterolemia grave encontrou um dado revelador: embora quase toda a amostra tivesse colesterol muito elevado, apenas 14% delas haviam sido identificadas com suspeita de hipercolesterolemia familiar a grande maioria seguia sem diagnóstico, tratando o colesterol alto como se fosse só uma questão de estilo de vida.

Quando a hipercolesterolemia familiar e a Lp(a) elevada aparecem juntas, o risco cardiovascular se soma, o que reforça por que identificar esses casos precocemente é tão importante inclusive para orientar o rastreamento de outros membros da família, já que ambas as condições são hereditárias.

Quem deveria priorizar o teste de Lp(a)

Testar a Lp(a) é especialmente relevante para:

  • Pessoas com histórico familiar de doença cardíaca precoce (antes dos 55 anos em homens, 65 em mulheres)
  • Quem já teve um evento cardiovascular mesmo com LDL bem controlado
  • Pessoas com diagnóstico ou suspeita de hipercolesterolemia familiar
  • Quem tem parentes de primeiro grau com Lp(a) elevada conhecida

Como o exame só precisa ser feito uma vez na vida, incluí-lo em um check-up de rotina mesmo sem sintomas é uma forma simples de fechar uma lacuna de informação que a maioria das pessoas nem sabe que tem.

O que fazer quando a Lp(a) está alta

Como a Lp(a) em si ainda não tem um tratamento amplamente disponível para reduzi-la diretamente, a abordagem médica atual foca em controlar agressivamente os outros fatores de risco que podem ser modificados: manter o LDL bem mais baixo do que o habitual, controlar pressão arterial, diabetes, peso e tabagismo. Ou seja, o objetivo não é “zerar” a Lp(a), mas reduzir a carga total de risco cardiovascular ao máximo possível sempre sob orientação de um cardiologista.

Perguntas frequentes sobre colesterol genético e Lp(a)

A Lp(a) é a mesma coisa que o colesterol LDL? Não. São partículas diferentes. O LDL responde a dieta, exercício e medicamentos; a Lp(a) é determinada quase inteiramente pela genética e não muda de forma relevante com hábitos de vida.

Preciso repetir o exame de Lp(a) todo ano? Não. Diferente do perfil lipídico tradicional, a Lp(a) tende a se manter estável ao longo da vida, então medir uma vez costuma ser suficiente, salvo orientação médica específica.

Se minha Lp(a) está alta, existe tratamento? Ainda não existe um tratamento amplamente disponível voltado especificamente para reduzir a Lp(a). A estratégia atual é controlar de forma mais rigorosa os demais fatores de risco cardiovascular, sob acompanhamento médico.

A hipercolesterolemia familiar é rara? É mais comum do que se imagina, mas segue amplamente subdiagnosticada. Estudos mostram que a maioria dos casos nunca chega a ser identificada como de origem genética.

Quem tem histórico familiar de infarto precoce deveria fazer algum exame específico? Vale conversar com um médico sobre a possibilidade de investigar tanto a hipercolesterolemia familiar quanto a Lp(a), já que ambas são hereditárias e costumam passar despercebidas nos exames de rotina mais básicos.

Conclusão

A conversa sobre colesterol costuma girar em torno de alimentação e exercício e, de fato, esses hábitos importam muito para o LDL e o HDL. Mas existe uma fatia do risco cardiovascular que nenhuma dieta resolve, porque está escrita no DNA. Testar a Lp(a) pelo menos uma vez na vida é uma forma simples de preencher essa lacuna, especialmente para quem tem histórico familiar de doença cardíaca.

Converse com seu médico sobre incluir a Lp(a) no seu próximo check-up.

Para hábitos alimentares que ajudam no colesterol LDL e na saúde cardiovascular em geral, veja também Alimentos para prevenir doenças cardíacas e Como evitar a pressão alta.