O câncer de pulmão segue entre os tipos de câncer mais comuns e mais letais no mundo. Porém, a forma de diagnosticá-lo e tratá-lo mudou de maneira significativa nos últimos vinte anos. Hoje, o tratamento depende cada vez menos de um protocolo único. Em vez disso, ele considera cada vez mais as características moleculares específicas de cada tumor.
Por isso, neste artigo, explicamos os sinais que merecem atenção e como funciona o diagnóstico atual. Também mostramos por que os testes moleculares se tornaram parte obrigatória do cuidado desse tipo de câncer.
Os dois grandes tipos de câncer de pulmão
O câncer de pulmão se divide em dois grandes grupos histológicos. O carcinoma de pulmão de células não pequenas responde por cerca de 85% dos casos. Ele inclui subtipos com comportamentos e tratamentos distintos. Já o carcinoma de pulmão de células pequenas é o subtipo mais agressivo. Tem evolução rápida e prognóstico historicamente mais desfavorável, frequentemente associado a longo histórico de tabagismo.
Essa distinção inicial, portanto, já direciona boa parte das decisões seguintes sobre diagnóstico e tratamento.
Sinais e sintomas: por que costumam aparecer tarde
Um dos maiores desafios do câncer de pulmão é que os sintomas costumam surgir apenas em estágios mais avançados da doença. Entre os sinais mais comuns estão tosse persistente, escarro com sangue, dor torácica, rouquidão, falta de ar e fadiga persistente.
Como esses sintomas também aparecem em condições respiratórias mais comuns e menos graves, muitas vezes a investigação específica para câncer só começa quando os sintomas persistem ou se intensificam. Por isso, qualquer sintoma respiratório novo e persistente merece avaliação médica, especialmente em pessoas com fatores de risco como tabagismo.
Como o diagnóstico funciona hoje
O diagnóstico costuma começar com exames de imagem, como radiografia e tomografia computadorizada do tórax, e pode incluir PET-scan para avaliar a extensão da doença. A confirmação definitiva, porém, depende de biópsia do tecido pulmonar.
A partir daí, o diagnóstico moderno vai além de confirmar que existe câncer. Ele também investiga as características moleculares específicas daquele tumor. Testes moleculares avaliam alterações em genes como EGFR, ALK, ROS1 e BRAF, além do biomarcador PD-L1. Hoje, esses testes fazem parte obrigatória dos protocolos clínicos do SUS para determinados subtipos. Como já explicamos no artigo sobre terapias-alvo no câncer, esses testes são o que permite decidir entre terapia-alvo, imunoterapia ou quimioterapia convencional para cada paciente.
Por que a mutação EGFR mudou tanto o cenário
Entre as alterações genéticas mais estudadas no câncer de pulmão está a mutação no gene EGFR. Ela está presente em cerca de 1 em cada 7 pacientes com carcinoma de células não pequenas, embora essa proporção seja maior entre pessoas não fumantes. O EGFR é uma proteína que ajuda a controlar o crescimento e a divisão das células. Quando sofre mutação, porém, passa a enviar sinais de crescimento de forma constante e descontrolada.
A identificação dessa mutação, há cerca de duas décadas, abriu caminho para terapias-alvo específicas para esse perfil molecular. Segundo o Instituto Oncoguia, essa descoberta foi um divisor de águas. Hoje já existem nove genes tratáveis por terapia-alvo em tumores mais avançados. Além disso, essas terapias também vêm mostrando eficácia em estágios iniciais da doença, aumentando as chances de controle a longo prazo.
O papel da imunoterapia
Além da terapia-alvo, a imunoterapia se tornou outro pilar do tratamento do câncer de pulmão nos últimos anos. A terapia-alvo mira diretamente uma alteração do tumor. Já a imunoterapia estimula o próprio sistema imunológico do paciente a reconhecer e atacar as células cancerígenas. Nesse sentido, a avaliação do biomarcador PD-L1 ajuda a indicar quando a imunoterapia pode trazer mais benefício, isoladamente ou combinada com quimioterapia.
Juntas, portanto, terapia-alvo e imunoterapia ampliaram bastante o arsenal terapêutico disponível. Assim, permitem tratamentos mais personalizados e, em muitos casos, com melhor qualidade de vida do que os protocolos de quimioterapia isolada usados no passado.
O tratamento muda conforme o estágio da doença
Em estágios iniciais, a cirurgia costuma ter papel central, podendo ser combinada com quimioterapia, imunoterapia ou terapia-alvo em situações específicas. Já em doença avançada ou metastática, o foco se volta para controlar o tumor, aliviar sintomas e preservar qualidade de vida pelo maior tempo possível.
Como não existe uma resposta única que sirva para todos os pacientes, dois diagnósticos aparentemente parecidos podem levar a condutas de tratamento bem diferentes, dependendo do perfil molecular de cada tumor.
Perguntas frequentes sobre câncer de pulmão
Quais são os primeiros sinais de câncer de pulmão? Tosse persistente, escarro com sangue, dor torácica, rouquidão, falta de ar e fadiga são os sinais mais comuns, mas costumam aparecer em estágios já mais avançados da doença.
Por que fazer teste molecular do tumor? Porque genes como EGFR, ALK, ROS1 e BRAF, junto com o biomarcador PD-L1, ajudam a definir se o paciente pode se beneficiar de terapia-alvo, imunoterapia ou quimioterapia convencional.
Só quem fuma tem câncer de pulmão? Não. Embora o tabagismo seja o principal fator de risco, especialmente para o subtipo de células pequenas, mutações como a do EGFR são mais comuns justamente em pacientes não fumantes.
A mutação genética do tumor pode mudar ao longo do tratamento? Sim. Alguns tumores desenvolvem resistência ao longo do tempo e podem adquirir novas alterações, o que às vezes justifica repetir a análise molecular.
Terapia-alvo e imunoterapia são a mesma coisa? Não. A terapia-alvo mira uma alteração molecular específica do tumor. Já a imunoterapia estimula o sistema imunológico do paciente a atacar o câncer de forma mais ampla. Muitos protocolos hoje combinam as duas abordagens.
Conclusão
O câncer de pulmão segue sendo um desafio de saúde pública significativo, mas o diagnóstico e o tratamento mudaram bastante nas últimas duas décadas. A investigação molecular do tumor, hoje parte obrigatória do cuidado em muitos casos, permite tratamentos mais personalizados e, em muitos cenários, com melhores resultados do que os protocolos disponíveis no passado.
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